Fundamentos de eletricidade e circuitos

 

Antigamente, as motos de trilha eram bastante simples na parte elétrica. Tinha-se faísca na vela, a moto pegava e pronto. no máximo um farol. Mas com as motos 4T veio também a partida elétrica, bateria, sensores de pressão do óleo, posição do acelerador... e com toda essa parafernália fica fácil perceber que o sistema elétrico tem ficado mais complexo. Até a injeção eletrônica já aparece em alguns modelos.

Unidades elétricas.

Para reparações simples em motocicletas precisamos conhecer bem três unidades elétricas:
Tensão ou voltagem. (V)
Corrente ou amperagem (A)
Resistência (W ohm)
O instrumento que mede essas grandezas elétricas é o multímetro. Aparelho que não é caro e é de extrema utilidade quando estamos trabalhando com circuitos elétricos.

Para melhor explicar as grandezas elétricas vamos fazer uma analogia com um circuito hidráulico.

 

V

Tensão elétrica é como a pressão dentro dos canos. Mostra a diferença de potencial entre dois pontos de um circuito, ou seja, a vontade que a corrente tem de "pular" para um local de menor potencial.

 

Para medirmos a tensão da bateria, selecionamos no multímetro uma escala que possua capacidade sempre para mais de 12 V de corrente contínua e colocamos as pontas de prova nos pólos da bateria para medir a diferença de "pressão" entre esses dois pontos. Observe que a corrente não flui através do multímetro pois senão teríamos um curto-circuito (o voltímetro fica em paralelo). Uma coisa interessante sobre a tensão produzida pelo magneto da moto é que ela é proporcional à rotação do motor. Para que a tensão não suba acima de um valor que poderia queimar as lâmpadas e estragar alguns componentes elétricos existe o regulador de voltagem. Para saber se existe tensão em um ponto qualquer do circuito, quem não tem um multímetro pode fazer uma lâmpada de teste usando uma pequena lâmpada de moto com o soquete (Painel, seta...). Ligue um fio da lâmpada no terra da moto (chassi) e com o outro fio você testa o circuito. A lâmpada acenderá onde houver 12V.


A

Corrente elétrica é a quantidade de elétrons que passa pelo fio durante um segundo. Ou seja, é como o fluxo de água que passa através dos canos. A corrente elétrica pode ser contínua como a das pilhas e baterias (CC ou DC) ou pode ser alternada como a que temos nas tomadas em casa (CA ou AC). A corrente alternada é a produzida no gerador (magneto) das motos e algumas vezes utilizada no farol.

 

Ela chama alternada por que muda de sentido diversas vezes por segundo. Para ser armazenada na bateria e utilizada nos outros sistemas a corrente alternada deve ser transformada em corrente contínua que possui pólo negativo e pólo positivo. Quem faz esse trabalho de transformar a corrente alternada em corrente contínua é o retificador. Portanto, uma bateria de moto possui 12 V CC. Para o multímetro poder medir a quantidade de corrente, que flui em um circuito, a corrente deve passar através do multímetro (O amperímetro fica em série) ao contrário da medida de tensão. Por isso devemos ter certeza do que queremos medir e selecionar a escala certa V ou A para não estragar o multímetro (ele tem um fusível e às vezes é só isso que queima).

A=V/R; A=P/V

W

Resistência elétrica é uma restrição à passagem de corrente através de um condutor. Em nosso circuito hidráulico seria como um afunilamento nos canos. Todos os condutores elétricos quando percorridos por uma corrente possuem alguma resistência elétrica. A resistência elétrica é que causa o aquecimento dos condutores, mas ela é também benéfica. Os fusíveis ao serem percorridos por uma corrente acima do seu valor nominal se aquecem e se fundem interrompendo o circuito e em muitos casos é a resistência que determina a quantidade de corrente que fluirá por um circuito. Para medirmos a resistência de um componente devemos soltar seus fios isolando o componente do resto do circuito.

R=V/A; R=P/A²; R=V²/P

Resistores em série RT=R1+R2+R3...
Resistores em paralelo 1/RT=1/R1+1/R2+1/R3...

Componente Resistência infinita. Resistência zero ou muito baixa.
Fusível Queimado Bom
Interruptor desligado Bom Em curto
Interruptor ligado Queimado Bom
Condutores Partido Bom
Conexões Sem contato Bom
Bobinas Fio partido Isolador defeituoso
Lâmpadas Queimada Boa
Enrolamento de motores Queimado Bom ou em curto

Resistência elétrica das bobinas. Motos nacionais

P

Potência elétrica é dada em Watts (W). É a medida da energia gasta por um período de tempo para realizar algum trabalho.

P=VA; P=V²/R; P=A²R

Circuito elétrico.

O circuito elétrico compõe-se de todos os componentes onde a corrente flui. Nas motos, geralmente o pólo negativo de todos componentes é ligado ao chassi, fazendo assim parte do circuito. Os componentes em um circuito elétrico podem ser ligados em série ou em paralelo. No circuito em série há somente um caminho disponível para a corrente que deve percorrer todos os componentes. No circuito em paralelo a corrente percorre cada componente independentemente, sendo que cada um desses componentes pode ter um valor de corrente e funcionamento independente dos demais.

 

Exemplo:

Buzina não está funcionando. (Demais parte elétrica ok)
Desconecte os fios da buzina, com a ignição ligada e o botão da buzina acionado verifique se existe tensão (V) nos fios da buzina.
Sim
Desligue a ignição e verifique a continuidade (W) entre o fio terra (normalmente fio verde escuro ou preto) e o chassi.
Não
Verifique se chega tensão no interruptor da buzina
Resistência muito baixa ou zero.
O problema deve ser na buzina. Ligue dois fios direto da bateria na buzina e verifique se ela funciona.
Resistência alta ou infinita.
Verifique onde está a interrupção na linha de terra.
Sim
Desligue a ignição e verifique a continuidade (W) das conexões e do chicote entre o botão e a buzina.
Não
Desligue a ignição. Verifique a continuidade (W) das conexões e do chicote entre ignição e o botão.

Simbologia.

Passe o mouse sobre as figuras.

Guia de defeitos Lâmpada Fusível Interruptor normalmente fechado (NF ou NC) Interruptor normalmente aberto (NA ou NO) Bobina Solenóide Diodo Capacitor Resistência Terra Cruzamento de fios sem ligação Ligação de fios Ohmímetro Amperímetro Bateria Voltímetro

O que Por quê
Farol "fraco" Lâmpada incorreta.
Absorção excessiva de acessórios.
Problemas no circuito de carga.
Maus contatos.
Terra insuficiente.
Queima constante de lâmpadas. Lâmpada incorreta.
Bateria no fim da vida útil.
Defeito no regulador/retificador.
Mau contato.
Motor de partida não consegue girar. Relé defeituoso.
Bateria fraca.
Conexões soltas.
Motor de partida não para de girar.

Curto no botão de acionamento.
Relé emperrado.

Não há faísca na vela. Vela de ignição defeituosa/suja.
Cabo de vela quebrado ou em curto.
CDI defeituoso.
Engine Stop em curto.
Bobina de pulso defeituosa.
Fiação solta ou em curto.
O motor não pega depois da lavagem ou depois de atravessar rios.

Água penetrou no:
magneto, filtro de ar, cachimbo da vela, botão do engine stop, conexões elétricas.

Pedal de partida dá retrocesso. (coice) ou a moto anda para trás.

Defeito no sistema de ignição (ponto adiantado)
Chaveta do magneto partida.

Código de cores:

B; BL; PT- Preto
LG - Verde claro
P - Cor de rosa
BR - Marrom
GY; GR - Cinza
R; VM- Vermelho
CH - Chocolate
L; BU, AZ- Azul
W; BR- Branco
DG - Verde escuro
SB; LB - Azul claro
Y; AM- Amarelo
G; VD- Verde
O - Laranja
 

 

Atenção:

- Desconecte o cabo negativo da bateria antes de realizar qualquer serviço na parte elétrica.
- Sempre separe os conectores do chicote com a chave da ignição na posição OFF.
- Antes de ligar os conectores verifique se não existem pinos empenados e se as conexões elétricas estão firmes. Certifique-se de empurrar os conectores até o fim.
- Fiações e conectores não devem ficar demasiadamente frouxos para não quebrar com os balanços repetidos e nem demasiadamente esticados.
- Examine as capas protetoras, isoladores e fixadores para garantir seu perfeito funcionamento.
- Verifique se nenhuma parte do chicote ficou em contato com alguma parte em movimento ou superfície quente.
- Proteja a fiação de saliências cortantes e quinas vivas.
- Certifique-se da correta passagem dos fios evitando que fiquem demasiadamente esticados ou torcidos quando movimentar o guidon.

- Nunca ligue o motor da moto em ambientes fechados

 

Fonte: Tudo sobre multímetros, Newton C. Braga
  Manual Completo da Moto, George Lear
  Manual Mecânico Honda
  Manual de serviço NX4 Falcon
  Manual de serviço DT200
   
Saiba mais: Howstuffworks Magneto
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